Quando o Rock Enfrentou o Senado: Prince, Judas Priest e a Guerra Cultural dos Anos 1980
- Heitor Brandão

- 6 de out. de 2025
- 3 min de leitura

Quarenta anos atrás, os maiores astros do rock e do pop se viram no centro de uma batalha improvável: enfrentar o Senado dos Estados Unidos. Prince, Madonna, Judas Priest e outros artistas foram acusados de corromper a juventude americana — e foram rotulados como os “inimigos do povo”. Tudo começou com uma menina de 11 anos e um álbum de sucesso. Em 1984, Purple Rain, de Prince, já havia conquistado 11 milhões de lares americanos. Ao ouvir a quinta faixa, Darling Nikki, a mãe de Karenna Gore, Tipper Gore, ficou chocada com a letra explícita sobre sexo. “Eu não conseguia acreditar no que ouvia”, disse Tipper. “A letra vulgar nos envergonhou. Fiquei chocada — e depois furiosa!” Determinada a agir, Tipper uniu-se a Susan Baker, esposa do secretário do Tesouro de Reagan, e mais duas mulheres influentes, criando o Parents Music Resource Center (PMRC), apelidado pela mídia americana de “as esposas de Washington”.

Com apoio de figuras próximas ao governo Reagan, como Mike Love (Beach Boys) e Joseph Coors, o PMRC rapidamente ganhou notoriedade. Em setembro de 1985, organizaram audiências no Senado para exigir maior controle parental sobre a música gravada. A ascensão da MTV e a retórica conservadora de Reagan sobre “valores familiares” criaram o clima perfeito para o moralismo, e os músicos provocativos tornaram-se alvos ideais. “No começo não levei o PMRC a sério”, lembra Blackie Lawless, do W.A.S.P. “Mas aquilo ganhou vida própria.”
O PMRC compilou uma lista de 15 músicas consideradas perigosas — os “Filthy Fifteen” — com temas de sexo, violência, drogas, ocultismo e palavrões. Prince aparecia três vezes. Madonna, Cyndi Lauper e Mary Jane Girls figuravam na lista por letras sexualmente explícitas, enquanto o heavy metal dominava a lista com Judas Priest, AC/DC, Mötley Crüe, Def Leppard, Twisted Sister e W.A.S.P. “Ser chamado de ‘inimigo do povo’ foi um exagero”, disse Rob Halford, do Judas Priest. “Mas é assim que nos pintaram.”
Durante as audiências, o PMRC pediu que a indústria fonográfica criasse um sistema de classificação musical, exigindo rótulos de advertência e restrições na venda e exibição de álbuns. A reação veio de Frank Zappa, John Denver e Dee Snider (Twisted Sister), que defenderam a liberdade artística. Zappa, de terno e gravata, foi direto: “A proposta do PMRC é um absurdo mal concebido que fere as liberdades civis.” Denver lembrou que sua canção Rocky Mountain High havia sido equivocadamente interpretada como apologia às drogas. Snider explicou que Under the Blade não era sobre sadomasoquismo, mas cirurgia. Mesmo assim, a indústria cedeu. A RIAA concordou em incluir os icônicos adesivos de Aviso Parental, e o Walmart anunciou que não venderia discos com o selo. “As vendas de todas as gravadoras sofreram”, recorda Halford. “A extrema direita dominava o Walmart.”

A campanha teve consequências reais. Lawless relatou ameaças de morte, foi baleado duas vezes e sofreu ferimentos durante shows. Os músicos reagiram com música: Judas Priest lançou Parental Guidance, Alice Cooper respondeu com Freedom, e W.A.S.P. dedicou Harder, Faster “às esposas de Washington”. O PMRC também inspirou processos judiciais. O Dead Kennedys enfrentou ações por causa da arte de H.R. Giger em Frankenchrist, e em 1990, Jello Biafra debateu publicamente com Tipper Gore, criticando a cruzada moral que, segundo ele, fortaleceu a direita cristã.
Para muitos, o PMRC teve motivações políticas. Cooper e Lawless afirmam que a campanha buscava fortalecer a imagem de Al Gore antes de sua candidatura presidencial de 1987. “Foi como o macarthismo, mas com guitarras”, disse Lawless. O foco da indignação mudou com o tempo. Nos anos 1990, o rap tornou-se o novo alvo, com grupos como N.W.A. e 2 Live Crew enfrentando censura e processos, mas vendendo milhões de álbuns.
O PMRC se dissolveu na década de 1990, mas seu símbolo permanece: o adesivo de Aviso Parental, hoje um ícone da cultura pop. “Colocar esses adesivos foi um tiro pela culatra”, lembra Cooper. “Eles marcaram exatamente os discos que as crianças mais quiseram comprar.” Quatro décadas depois, com a internet oferecendo acesso irrestrito a qualquer conteúdo, a cruzada de Tipper Gore parece quase inocente — mas o debate sobre censura artística continua. “Já vivi o suficiente para ver a história se repetir”, conclui Halford. Enquanto isso, Alice Cooper lança seu novo álbum, The Revenge of Alice Cooper, lembrando que, no rock, a liberdade de expressão sempre toca mais alto que qualquer aviso.
*Baseado em reportagem do The Guardian
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