O Retorno dos irmãos impossíveis
- Heitor Brandão

- 4 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

O Cardiff's Principality Stadium transformou-se numa espécie de tribunal familiar numa sexta-feira de julho, onde sessenta mil pessoas pagaram pequenas fortunas para testemunhar algo que muitos juraram que jamais aconteceria: os irmãos Gallagher no mesmo palco, respirando o mesmo ar rarefeito da fama, fingindo que não passaram as últimas décadas se detestando publicamente. Noel e Liam, agora veteranos de 58 e 52 anos respectivamente, subiram ao palco carregando nas costas não apenas guitarras e microfones, mas dezesseis anos de ressentimento acumulado e uma reputação de serem os siblings mais disfuncionais do rock britânico desde os Davies do Kinks.
A abertura com "Hello" soou como uma ironia shakespeariana. "É bom estar de volta", cantou Liam, numa frase que poderia ser interpretada como uma confissão ou uma mentira educada. O show transcorreu com a teatralidade de um armistício diplomático – os irmãos mantiveram distância segura no palco, como dois ímãs de mesma polaridade forçados a conviver no mesmo campo magnético. O momento mais revelador veio no final: um breve abraço que selou a união. Foi um gesto que durou segundos, mas que custou décadas para acontecer.

O setlist funcionou como uma viagem nostálgica aos anos 1990, quando o Britpop era a trilha sonora da Cool Britannia e Tony Blair ainda era considerado o futuro. "Definitely Maybe" e "What's the Story (Morning Glory)" dominaram a noite, com "Wonderwall" e "Don't Look Back in Anger" provocando momentos de catarse coletiva que lembravam mais uma sessão de terapia em grupo do que um show de rock. Numa decisão editorial curiosa, o show prestou homenagem a Diogo Jota, jogador português do Liverpool morto em acidente – lembrando que futebol e música sempre foram as duas obsessões gêmeas da classe operária britânica.
"Foi absolutamente incrível — o melhor show da minha vida", declarou Nathan Price-Gearey à Associated Press, num depoimento que soava mais como alívio do que euforia. Afinal, depois de esperar dezesseis anos, qualquer coisa que não terminasse em pancadaria já seria um sucesso. A turnê Live '25 promete ser uma das mais lucrativas da história recente, com datas que se estendem até novembro e passagem por São Paulo.
Fundado nas ruas operárias de Manchester em 1991, o Oasis foi, durante uma década, a banda que melhor capturou o espírito de uma Inglaterra que acreditava novamente em si mesma. Oito álbuns no topo das paradas britânicas depois, os irmãos Gallagher conseguiram a façanha de brigar tanto que se tornaram mais famosos pelas brigas do que pela música. A briga final em 2009, nos bastidores de um show na França, entrou para o folclore do rock como o término definitivo.
Cardiff provou que algumas feridas nunca cicatrizam completamente – apenas fingem que sim quando há público suficiente assistindo e dinheiro suficiente em jogo. O Oasis voltou não porque os irmãos Gallagher se reconciliaram, mas porque descobriram que podem se odiar profissionalmente por duas horas e ainda assim arrancar lágrimas de nostalgia de uma geração inteira. No final, talvez seja isso que sempre foi o Oasis: um experimento sobre quanto rancor dois irmãos podem carregar e ainda assim fazer música que emociona multidões.
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